Em uma das escolas do município da Baixada, de 550 alunos, uma inspeção do Ministério Público achou só cinco pacotes de frango. Segundo a PF, pelo menos R$ 6 milhões foram desviados do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e embolsados por criminosos. Alunos de escolas de Belford Roxo sofrem com problemas na merenda, dizem investigações e estudantes
Vítimas de um esquema milionário de desvio de verbas, estudantes de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, sofrem com falta de alimentos na hora da merenda, segundo o Ministério Público e estudantes ouvidos pelo RJ2.
De acordo com as investigações da Operação Fames, deflagrada pela Polícia Federal (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF), empresas contratadas pela Prefeitura de Belford Roxo deixaram de fornecer 500 toneladas de alimentos para as escolas da cidade. Segundo a PF, pelo menos R$ 6 milhões foram desviados do Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e embolsados por criminosos.
Enquanto isso, responsáveis e estudantes relatam os problemas na merenda das escolas. A técnica de enfermagem Rosemere de Andrade Botelho, que tem dois sobrinhos estudando na Escola Municipal Deputado Osvaldo Lima, conta que as crianças relatam que tem dias que não há merenda no colégio.
Procuradores do Ministério Público Federal fizeram uma vistoria na escola em julho do ano passado. As merendeiras relataram comprar temperos, cebola e alho do próprio bolso. Eles também estiveram na Escola Manoel Gomes, a uma quadra de distância.
Lá, as merendeiras relataram que alimentos não eram suficientes para os alunos. As proteínas mais usadas eram frango e ovo e as crianças reclamavam muito de ter que comer ovo vários dias seguidos. Procuradores encontraram apenas 5 pacotes de frango no freezer, para uma escola de 550 alunos.
Do ano passado pra cá não mudou muita coisa, segundo estudantes. O RJ2 conversou nesta quinta (11) com alunos da Escola Municipal Manoel Gomes, em Belford Roxo. Eles contaram que a merenda deixa muito a desejar. Reclamaram da qualidade e também da variedade dos alimentos. Os estudantes disseram ter que comer arroz com ovo quase todo dia, além de sopa.
Três empresas contratadas pela Prefeitura de Belford Roxo para fornecer merenda aos alunos da rede pública entre 2018 e 2020.
Só a Jota 3 Loja de convêniencia recebeu, segundo as investigações, R$ 3,3 milhões da prefeitura de Belford Roxo para a compra de 276 toneladas de proteína animal, mas só adquiriu dos fornecedores pouco mais de 175 toneladas.
Segundo o MPF, a empresa deixou de entregar 37% do que estava previsto no contrato, cerca de 100 toneladas de alimentos, o equivalente a mais de R$ 1,2 milhão.
O RJ2 foi até o endereço que consta na Receita Federal como sendo o da sede da empresa no centro de Nilópolis, mas não encontrou ninguém. Depois, foi para um outro endereço também ligado à Jota 3, mas, na fachada, a placa diz que ali funciona uma outra empresa, a Hcmix comercial. Ninguém atendeu.
Segundo o Minstério Público Federal, a Hcmix Comércio e Serviços Ltda é ligada a Jota 3. Os procuradores concluíram que essa era mais uma das empresas usadas no esquema de corrupção.
A Hcmix é ainda suspeita de fazer depósitos na conta dos envolvidos. Um dos investigados recebeu, entre outubro de 2019 e dezembro de 2020, mais de R$ 600 mil.
Secretário de Educação de Belford Roxo, Denis Macedo, é exonerado
Na investigação do MPF, a peça central de toda essa engrenagem financeira de corrupção era o então secretário municipal de educação de Belford Roxo, Denis Macedo, que está preso.
Segundo os procuradores, ele recebeu propina das empresas das 3 empresas contratadas pra fornecer alimentos ao município.
As investigações apontam ainda que Dênis Macedo recebeu entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020, mais de R$ 351 mil em dinheiro em espécie depositado em suas contas, dos quais R$ 275 mil não estavam identificados.
Denis Macedo, que está preso na cadeia de Benfica, foi exonerado do cargo de secretário de educação de Belford Roxo.
Mas voltou a ser elogiado pelo prefeito Waguinho em uma entrevista, nesta quarta, a um podcast. "Então eu quero aqui convocar qualquer pessoa que tenha dúvida, que possa visitar qualquer unidade nossa escolar. As portas estão abertas. Não tem uma unidade que não tenha comida! E uma coisa eu posso garantir: as nossas escolas todas estão abarrotadas de merenda", afirmou.
O que dizem os citados
O RJ2 questionou a Prefeitura de Belford Roxo sobre detalhes do esquema de corrupção identificados pelo Ministério Público Federal, principalmente, nas escolas citadas e também sobre as empresas apontadas como envolvidas nos desvios de recursos públicos, mas a prefeitura se limitou a informar que que são distribuídas , diariamente, 120 mil refeições aos 47 mil alunos das 120 escolas municipais da cidade. A prefeitura também acrescentou que o cardápio é feito por nutricionistas da Secretaria Municipal de Educação.
Por fim, a prefeitura disse que vai uma sindicância para verificar as denúncias de falta de merenda nas escolas.
A defesa do ex-secretário Dênis Macedo reafirmou que ele é inocente. O RJ2 também procurou os representantes das empresas "Jota 3 Loja de Conveniência", "Amorim Comércio de Alimentos" e "RLC Barbosa Comercio e Serviços" .
A HCMIX Comercial disse que ainda não teve acesso aos autos do processo e que o mesmo está correndo em segredo de justiça. "Não podemos declarar nada antes de verificarmos as informações apresentadas no mesmo", acrescentou.
Publicada por: RBSYS